Mostrando postagens com marcador Bolívia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Bolívia. Mostrar todas as postagens

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Filme do filho do Gláuber Rocha, Eryk Rocha, foca a força indígena boliviana!

Documentário "Pachamama" foca ebulição indígena pós-Evo Morales

Fonte: Vermelho e Cappacete

Em seu terceiro longa, "Pachamama", o diretor carioca Eryk Rocha atravessa a tríplice fronteira entre o Brasil, o Peru e a Bolívia, no Acre, para realizar um documentário em que investiga a ebulição que atinge os povos indígenas na América do Sul, especialmente na Bolívia, sob a presidência de Evo Morales.

O filme, que estreia em São Paulo e no Rio de Janeiro, foi viabilizado como um projeto para a TV, que rendeu também uma minissérie já exibida no Canal Brasil e a ser mostrada também no Canal Futura. Em abril, "Pachamama" será lançado no cinema em La Paz.

Filho do lendário Glauber Rocha ("Deus e o Diabo na Terra do Sol"), cuja memória explorou em seu filme de estreia, "Rocha que Voa" (2002), Eryk herda do pai esta preocupação com uma identidade latino-americana que atravessa fronteiras. Mas assume um ponto de vista bem diferente, com registro temporal atualizado, ao focar a retomada da cultura ancestral por parte dos quéchuas, aymaras e outros povos nativos.

Fazendo ele mesmo a câmera do filme, Eryk toma o pulso de uma inquietação que vem tomando as nações de maioria indígena da América do Sul, a partir da chegada ao poder do boliviano Morales -- o primeiro presidente indígena do continente, eleito em 2005 e reeleito em 2009.

O cineasta anda no meio da rua, entra em discussões espontâneas, em que surgem as mais diversas teses. Um homem defende a volta a uma nação aymara original, hoje dividida entre Peru, Bolívia e Argentina, e acha inevitável o derramamento de sangue. Outros discordam. De todo modo, a reavaliação da herança indígena que resistiu à colonização de espanhois e portugueses está na ordem do dia.

Filmando em meados de 2007, Eryk acompanha parte das grandes manifestações e assembleias para debate sobre novas formas de organização e divisão comunitárias da terra, bem como a nacionalizações de alguns setores, temas candentes da Bolívia sob Morales. Flagra também um momento de crise em Santa Cruz, província que luta historicamente para emancipar-se da Bolívia -- e cujo representante, numa entrevista, elogia para o cineasta o que encara como a pouca disposição agressiva dos brasileiros para resolver seus conflitos, preferindo o "jeitinho".

Louro e de olhos claros, Eryk tem que lidar também com a desconfiança que desperta entre as pessoas, que o confundem com um "gringo" (norte-americano) ou jornalista -- categoria que também desperta a desconfiança de muitos, devido ao viés crítico que enxergam na maioria das reportagens, especialmente de televisão, ao retratarem a movimentação popular.

Não falta também a exposição de uma das teses internacionalmente mais polêmicas de Morales -- um ex-cocalero que defende o tradicional consumo das folhas de coca pelos indígenas contra o cansaço e a fome. "Não vejo porque a coca seja ilegal para os índios e legal apenas para a Coca-Cola", costuma dizer.

Umas das sequências mais impressionantes é a visita a Potosí que, no período da colonização espanhola, chegou a ser a maior mina de prata do mundo. Hoje com uma produção apenas residual, a mina é um cenário fantasmagórico, em que os mineiros mantêm bonecos de entidades mágicas para espantar o maior fantasma local -- o risco de morte. Segundo autores como o escritor uruguaio Eduardo Galeano, autor do clássico livro "As Veias Abertas da América Latina", oito milhões de mineiros teriam morrido ali desde o século XVI.

Proporcionalmente, o Brasil ocupa pouco espaço no filme, ao contrário do que acontece na série. O único país falante de português do continente, entretanto, é mencionado às vezes, seja de maneira realista ou equivocada. Num dado momento, alguém diz que o Brasil tem "70% de analfabetos", um número absurdo. Quase sempre, o Brasil é lembrado como o vizinho maior e mais rico.