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quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Para refletir: o racismo à brasileira de Ziraldo.

Carta Aberta ao Ziraldo, por Ana Maria Gonçalves PDF Imprimir E-mail
  
Sáb, 19 de Fevereiro de 2011 14:34
Olho para o rosto sorridente da mulata nos braços de Monteiro Lobato e quase posso ouvi-la dizer: "Só dói quando eu rio".
Caro Ziraldo,
Olho a triste figura de Monteiro Lobato abraçado a uma mulata, estampada nas camisetas do bloco carnavalesco carioca "Que merda é essa?" e vejo que foi obra sua. Fiquei curiosa para saber se você conhece a opinião de Lobato sobre os mestiços brasileiros e, de verdade, queria que não. Eu te respeitava, Ziraldo. Esperava que fosse o seu senso de humor falando mais alto do que a ignorância dos fatos, e por breves momentos até me senti vingada. Vingada contra o racismo do eugenista Monteiro Lobato que, emcarta ao amigo Godofredo Rangel, desabafou: "(...)Dizem que a mestiçagem liquefaz essa cristalização racial que é o caráter e dá uns produtos instáveis. Isso no moral – e no físico, que feiúra! Num desfile, à tarde, pela horrível Rua Marechal Floriano, da gente que volta para os subúrbios, que perpassam todas as degenerescências, todas as formas e má-formas humanas – todas, menos a normal. Os negros da África, caçados a tiro e trazidos à força para a escravidão, vingaram-se do português de maneira mais terrível – amulatando-o e liquefazendo-o, dando aquela coisa residual que vem dos subúrbios pela manhã e reflui para os subúrbios à tarde. E vão apinhados como sardinhas e há um desastre por dia, metade não tem braço ou não tem perna, ou falta-lhes um dedo, ou mostram uma terrível cicatriz na cara. “Que foi?” “Desastre na Central.” Como consertar essa gente? Como sermos gente, no concerto dos povos? Que problema terríveis o pobre negro da África nos criou aqui, na sua inconsciente vingança!..." (em "A barca de Gleyre". São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1944. p.133).
Ironia das ironias, Ziraldo, o nome do livro de onde foi tirado o trecho acima é inspirado em um 27_MHG_camisa_do_que_m_e_essa%20%281%29.jpgquadro do pintor suíço Charles Gleyre (1808-1874), Ilusões Perdidas. Porque foi isso que aconteceu. Porque lendo uma matéria sobre o bloco e a sua participação, você assim o endossa : "Para acabar com a polêmica, coloquei o Monteiro Lobato sambando com uma mulata. Ele tem um conto sobre uma neguinha que é uma maravilha. Racismo tem ódio. Racismo sem ódio não é racismo. A ideia é acabar com essa brincadeira de achar que a gente é racista". A gente quem, Ziraldo? Para quem você se (auto) justifica? Quem te disse que racismo sem ódio, mesmo aquele com o "humor negro" de unir uma mulata a quem grande ódio teve por ela e pelo que ela representava, não é racismo? Monteiro Lobato, sempre que se referiu a negros e mulatos, foi com ódio, com desprezo, com a certeza absoluta da própria superioridade, fazendo uso do dom que lhe foi dado e pelo qual é admirado e defendido até hoje. Em uma das cartas que iam e vinham na barca de Gleyre (nem todas estão publicadas no livro, pois a seleção foi feita por Lobato, que as censurou, claro) com seu amigo Godofredo Rangel, Lobato confessou que sabia que a escrita "é um processo indireto de fazer eugenia, e os processos indiretos, no Brasil, 'work' muito mais eficientemente". Lobato estava certo. Certíssimo. Até hoje, muitos dos que o leram não vêem nada de errado em seu processo de chamar negro de burro aqui, de fedorento ali, de macaco acolá, de urubu mais além. Porque os processos indiretos, ou seja, sem ódio, fazendo-se passar por gente boa e amiga das crianças e do Brasil, "work" muito bem. Lobato ficou frustradíssimo quando seu "processo" sem ódio, só na inteligência, não funcionou com os norte-americanos, quando ele tentou em vão encontrar editora que publicasse o que considerava ser sua obra prima em favor da eugenia e da eliminação, via esterilização, de todos os negros. Ele falava do livro "O presidente negro ou O choque das raças" que, ao contrário do que aconteceu nos Estados Unidos, país daquele povo que odeia negros, como você diz, Ziraldo, foi publicado no Brasil. Primeiro em capítulos no jornal carioca A Manhã, do qual Lobato era colaborador, e logo em seguida em edição da Editora Companhia Nacional, pertencente a Lobato. Tal livro foi dedicado secretamente ao amigo e médico eugenista Renato Kehl, em meio à vasta e duradoura correspondência trocada pelos dois: “Renato, tu és o pai da eugenia no Brasil e a ti devia eu dedicar meu Choque, grito de guerra pró-eugenia. Vejo que errei não te pondo lá no frontispício, mas perdoai a este estropeado amigo. (...) Precisamos lançar, vulgarizar estas idéias. A humanidade precisa de uma coisa só: póda. É como a vinha".
Impossibilitado de colher os frutos dessa poda nos EUA, Lobato desabafou com Godofredo Rangel: "Meu romance não encontra editor. [...]. Acham-no ofensivo à dignidade americana, visto admitir que depois de tantos séculos de progresso moral possa este povo, coletivamente, cometer a sangue frio o belo crime que sugeri. Errei vindo cá tão verde. Devia ter vindo no tempo em que eles linchavam os negros." Tempos depois, voltou a se animar: "Um escândalo literário equivale no mínimo a 2.000.000 dólares para o autor (...) Esse ovo de escândalo foi recusado por cinco editores conservadores e amigos de obras bem comportadas, mas acaba de encher de entusiasmo um editor judeu que quer que eu o refaça e ponha mais matéria de exasperação. Penso como ele e estou com idéias de enxertar um capítulo no qual conte a guerra donde resultou a conquista pelos Estados Unidos do México e toda essa infecção spanish da América Central. O meu judeu acha que com isso até uma proibição policial obteremos - o que vale um milhão de dólares. Um livro proibido aqui sai na Inglaterra e entra boothegued como o whisky e outras implicâncias dos puritanos".Lobato percebeu, Ziraldo, que talvez devesse apenas exasperar-se mais, ser mais claro em suas ideias, explicar melhor seu ódio e seu racismo, não importando a quem atingiria e nem por quanto tempo perduraria, e nem o quão fundo se instalaria na sociedade brasileira. Importava o dinheiro, não a exasperação dos ofendidos. 2.000.000 de dólares, ele pensava, por um ovo de escândalo. Como também foi por dinheiro que oJeca Tatu, reabilitado, estampou as propagandas do Biotônico Fontoura.
Você sabe que isso dá dinheiro, Ziraldo, mesmo que o investimento tenha sido a longo prazo, como ironiza Ivan Lessa: "Ziraldo, o guerrilheiro do traço, está de parabéns. Finalmente o governo brasileiro tomou vergonha na cara e acabou de pagar o que devia pelo passe de Jeremias, o Bom, imortal personagem criado por aquele que também é conhecido como “o Lamarca do nanquim”. Depois do imenso sucesso do calunguinha nas páginas de diversas publicações, assim como também na venda de diversos produtos farmacêuticos, principalmente doenças da tireóide, nos idos de 70, Ziraldo, cognominado ainda nos meios esclarecidos como “o subversivo da caneta Pilot”, houve por bem (como Brutus, Ziraldo é um homem de bem; são todos uns homens de bem – e de bens também) vender a imagem de Jeremias para a loteca, ou seja, para a Caixa Econômica Federal (federal como em República Federativa do Brasil) durante o governo Médici ou Geisel (os déspotas esclarecidos em muito se assemelham, sendo por isso mesmo intercambiáveis)".
No tempo em que linchavam negros, disse Lobato, como se o linchamento ainda não fosse desse nosso tempo. Lincham-se negros nas ruas, nas portas dos shoppings e bancos, nas escolas de todos os níveis de ensino, inclusive o superior. O que é até irônico, porque Lobato nunca poderia imaginar que chegariam lá. Lincham-se negros, sem violência física, é claro, sem ódio, nos livros, nos artigos de jornais e revistas, nos cartoons e nas redes sociais, há muitos e muitos carnavais. Racismo não nasce do ódio ou amor, Ziraldo, sendo talvez a causa e não a consequência da presença daquele ou da ausência desse. Racismo nasce da relação de poder. De poder ter influência ou gerência sobre as vidas de quem é considerado inferior. "Em que estado voltaremos, Rangel," se pergunta Lobato, ao se lembrar do quadro para justificar a escolha do nome do livro de cartas trocadas, "desta nossa aventura de arte pelos mares da vida em fora? Como o velho de Gleyre? Cansados, rotos? As ilusões daquele homem eram as velas da barca – e não ficou nenhuma. Nossos dois barquinhos estão hoje cheios de velas novas e arrogantes, atadas ao mastro da nossa petulância. São as nossas ilusões". Ah, Ziraldo, quanta ilusão (ou seria petulância? arrogância; talvez? sensação de poder?) achar que impor à mulata a presença de Lobato nessa festa tipicamente negra, vá acabar com a polêmica e todos poderemos soltar as ancas e cada um que sambe como sabe e pode. Sem censura. Ou com censura, como querem os quemerdenses. Mesmo que nesse do Caçadas de Pedrinho a palavra censura não corresponda à verdade, servindo como mero pretexto para manifestação de discordância política, sem se importar com a carnavalização de um tema tão dolorido e tão caro a milhares de brasileiros. E o que torna tudo ainda mais apelativo é que o bloco aponta censura onde não existe e se submete, calado, ao pedido da prefeitura para que não use o próprio nome no desfile. Não foi assim? Você não teve que escrever "M*" porque a palavra "merda" foi censurada? Como é que se explica isso, Ziraldo? Mente-se e cala-se quando convém? Coerência é uma questão de caráter.
ziraldo_direitos_humanos.jpgO que o MEC solicita não é censura. É respeito aos Direitos Humanos. Ao direito de uma criança negra em uma sala de aula do ensino básico e público, não se ver representada (sim, porque os processos indiretos, como Lobato nos ensinou, "work" muito mais eficientemente) em personagens chamados de macacos, fedidos, burros, feios e outras indiretas mais. Você conhece os direitos humanos, inclusive foi o artista escolhido para ilustrar a Cartilha de Direitos Humanos encomendada pela Presidência da República, pelas secretarias Especial de Direitos Humanos e de Promoção dos Direitos Humanos, pela ONU, a UNESCO, pelo MEC e por vários outros órgãos. Muitos dos quais você agora desrespeita ao querer, com a sua ilustração, acabar de vez com a polêmica causada por gente que estudou e trabalhou com seriedade as questões de educação e desigualdade racial no Brasil. A adoção do Caçadas de Pedrinho vai contra a lei de Igualdade Racial e o Estatuto da Criança e do Adolescente, que você conhece e ilustrou tão bem. Na página 25 da sua Cartilha de Direitos Humanos, está escrito: "O único jeito de uma sociedade melhorar é caprichar nas suas crianças. Por isso, crianças e adolescentes têm prioridade em tudo que a sociedade faz para garantir os direitos humanos. Devem ser colocados a salvo de tudo que é violência e abuso. É como se os direitos humanos formassem um ninho para as crianças crescerem." Está lá, Ziraldo, leia de novo: "crianças e adolescentes têm prioridade". Em tudo. Principalmente em situações nas quais são desrespeitadas, como na leitura de um livro com passagens racistas, escrito por um escritor racista com finalidades racistas. Mas você não vê racismo e chama de patrulhamento do politicamente correto e censura. Você está pensando nas crianças, Ziraldo? Ou com medo de que, se a moda pega, a "censura" chegue ao seu direito de continuar brincando com o assunto? "Acho injusto fazer isso com uma figura da grandeza de Lobato", você disse em uma reportagem. E com as crianças, o público-alvo que você divide com Lobato, você acha justo? Sim, vocês dividem o mesmo público e, inclusive, alguns personagens, como uma boneca e pano e o Saci, da sua Turma do Pererê. Medo de censura, Ziraldo, talvez aos deslizes, chamemos assim, que podem ser cometidos apenas porque se acostuma a eles, a ponto de pensar que não são, de novo chamemos assim, deslizes.
A gente se acostuma, Ziraldo. Como o seu menino marrom se acostumou com as sandálias de dedo: "O menino marrom estava tão acostumado com aquelas sandálias que era capaz de jogar futebol com elas, apostar corridas, saltar obstáculos sem que as sandálias desgrudassem de seus pés. Vai ver, elas já faziam parte dele" (ZIRALDO, 1986,p. 06, em O Menino Marrom). O menino marrom, embora seja a figura simpática e esperta e bonita que você descreve, estava acostumado e fadado a ser pé-de-chinelo, em comparação ao seu amigo menino cor-de-rosa, porque "(...) um já está quase formado e o outro não estuda mais (...). Um já conseguiu um emprego, o outro foi despedido do quinto que conseguiu. Um passa seus dias lendo (...), um não lê coisa alguma, deixa tudo pra depois (...). Um pode ser diplomata ou chofer de caminhão. O outro vai ser poeta ou viver na contramão (...). Um adora um som moderno e o outro – Como é que pode? – se amarra é num pagode. (...) Um é um cara ótimo e o outro, sem qualquer duvida, é um sujeito muito bom. Um já não é mais rosado e o outro está mais marrom" (ZIRALDO, 1986, p.31). O menino marrom, ao crescer, talvez virasse marginal, fado de muito negro, como você nos mostra aqui: "(...) o menino cor-de-rosa resolveu perguntar: por que você vem todo o dia ver a velhinha atravessar a rua? E o menino marrom respondeu: Eu quero ver ela ser atropelada" (ZIRALDO, 1986, p.24), porque a própria professora tinha ensinado para ele a diferença e a (não) mistura das cores. Então ele pensou que "Ficar sozinho, às vezes, é bom: você começa a refletir, a pensar muito e consegue descobrir coisas lindas. Nessa de saber de cor e de luz (...) o menino marrom começou a entender porque é que o branco dava uma idéia de paz, de pureza e de alegria. E porque razão o preto simbolizava a angústia, a solidão, a tristeza. Ele pensava: o preto é a escuridão, o olho fechado; você não vê nada. O branco é o olho aberto, é a luz!" (ZIRALDO, 1986, p.29), e que deveria se conformar com isso e não se revoltar, não ter ódio nenhum ao ser ensinado que, daquela beleza, pureza e alegria que havia na cor branca, ele não tinha nada. O seu texto nos ensina que é assim, sem ódio, que se doma e se educa para que cada um saiba o seu lugar, com docilidade e resignação: "Meu querido amigo: Eu andava muito triste ultimamente, pois estava sentindo muito sua falta. Agora estou mais contente porque acabo de descobrir uma coisa importante: preto é, apenas, a ausência do branco" (ZIRALDO, 1986, p.30).
Olha que interessante, Ziraldo: nós que sabemos do racismo confesso de Lobato e conseguimos vê-lo em sua obra, somos acusados por você de "macaquear" (olha o termo aí) os Estados Unidos, vendo racismo em tudo. "Macaqueando" um pouco mais, será que eu poderia também acusá-lo de estar "macaqueando" Lobato, em trechos como os citados acima? Sem saber, é claro, mas como fruto da introjeção de um "processo" que ele provou que "work" com grande eficiência e ao qual podemos estar todos sujeitos, depois de sermos submetidos a ele na infância e crescermos em uma sociedade na qual não é combatido. Afinal, há quem diga que não somos racistas. Que quem vê o racismo, na maioria os negros, que o sofrem, estão apenas "macaqueando". Deveriam ficar calados e deixar dessa bobagem. Deveriam se inspirar no menino marrom e se resignarem. Como não fazem muitos meninos e meninas pretos e marrons, aqueles que são a ausência do branco, que se chateiam, que se ofendem, que sofrem preconceito nas ruas e nas escolas e ficam doídos, pensando nisso o tempo inteiro, pensando tanto nisso que perdem a vontade de ir à escola, começam a tirar notas baixas porque ficam matutando, ressentindo, a atenção guardadinha lá debaixo da dor. E como chegam à conclusão de que aquilo não vai mudar, que não vão dar em nada mesmo, que serão sempre pés-de-chinelo, saem por aí especializando-se na arte de esperar pelo atropelamento de velhinhas.
Racismo é um dos principais fatores responsáveis pela limitada participação do negro no sistema escolar, Ziraldo, porque desvia o foco, porque baixa a auto-estima, porque desvia o foco das atividades, porque a criança fica o tempo todo tendo que pensar em como não sofrer mais humilhações, e o material didático, em muitos casos, não facilita nada a vida delas. E quando alguma dessas crianças encontra um jeito de fugir a esse destino, mesmo que não tenha sido através da educação, fica insuportável e merece o linchamento público e exemplar, como o sofrido por Wilson Simonal. Como exemplo, temos a sua opinião sobre ele: "Era tolo, se achava o rei da cocada preta, coitado. E era mesmo. Era metido, insuportável". Sabe, Ziraldo, é por causa da perpetuação de estereótipos como esses que às vezes a gente nem percebe que eles estão ali, reproduzidos a partir de preconceitos adquiridos na infância, que a SEPPIR pediu que o MEC reavaliasse a adoção de Caçadas de Pedrinho. Não a censura, mas a reavaliação. Uma nota, talvez, para ser colocada junto com as outras notas que já estão lá para proteger os direitos das onças de não serem caçadas e o da ortografia, de evoluir. Já estão lá no livro essas duas notas e a SEPPIR pede mais uma apenas, para que as crianças e os adolescentes sejam "colocados a salvo de tudo que é violência e abuso", como está na cartilha que você ilustrou. Isso é um direito delas, como seres humanos. É por isso que tem gente lutando, como você também já lutou por direitos humanos e por reparação. É isso que a SEPPIR pede: reparação pelos danos causados pela escravidão e pelo racismo.
Assim você Saiba mais')" >http://oglobo.globo.com/pais/mat/2008/04/04/anistia_ziraldo_jaguar_vao_receber_indenizacao_pensao_mensal-426702935.asp" style="text-decoration: none;color: rgb(243, 130, 1);font-size: 12px;font-weight: bold;font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;">se defendeu de quem o atacou na época em que conseguiu fazer valer os seus direitos: "(…) Espero apenas que os leitores (que o criticam) não tenham sua casa invadida e, diante de seus filhos, sejam seqüestrados por componentes do exército brasileiro pelo fato de exercerem o direito de emitir sua corajosa opinião a meu respeito, eu, uma figura tão poderosa”. Ziraldo, você tem noção do que aconteceu com os, citando Lobato, "negros da África, caçados a tiro e trazidos à força para a escravidão", e do que acontece todos os dias com seus descendentes em um país que naturalizou e, paradoxalmente, nega o seu racismo? De quantos já morreram e ainda morrem todos os dias porque tem gente que não os leva a sério? Por causa do racismo é bem difícil que essa gente fadada a ser pé-de-chinelo a vida inteira, essas pessoas dos subúrbios, que perpassam todas as degenerescências, todas as formas e má-formas humanas – todas, menos a normal, - porque nelas está a ausência do branco, esse povo todo representado pela mulata dócil que você faz sorrir nos braços de um dos escritores mais racistas e perversos e interesseiros que o Brasil já teve, aquele que soube como ninguém que um país (racista) também de faz de homens e livros (racistas), por causa disso tudo, Ziraldo, é que eu ia dizendo ser quase impossível para essa gente marrom, herdeira dessa gente de cor que simboliza a angústia, a solidão, a tristeza, gerar pessoas tão importantes quanto você, dignas da reparação (que nem é financeira, no caso) que o Brasil também lhes deve: respeito. Respeito que precisou ser ancorado em lei para que tivesse validade, e cuja aplicação você chama de censura.menino-lendo.jpg
Junto com outros grandes nomes da literatura infantil brasileira, como Ana Maria Machado e Ruth Rocha, você assinou uma carta que, em defesa de Lobato e contra a censura inventada pela imprensa, diz: "Suas criações têm formado, ao longo dos anos, gerações e gerações dos melhores escritores deste país que, a partir da leitura de suas obras, viram despertar sua vocação e sentiram-se destinados, cada um a seu modo, a repetir seu destino. (...) A maravilhosa obra de Monteiro Lobato faz parte do patrimônio cultural de todos nós – crianças, adultos, alunos, professores – brasileiros de todos os credos e raças. Nenhum de nós, nem os mais vividos, têm conhecimento de que os livros de Lobato nos tenham tornado pessoas desagregadas, intolerantes ou racistas. Pelo contrário: com ele aprendemos a amar imensamente este país e a alimentar esperança em seu futuro. Ela inaugura, nos albores do século passado, nossa confiança nos destinos do Brasil e é um dos pilares das nossas melhores conquistas culturais e sociais." É isso. Nos livros de Lobato está o racismo do racista, que ninguém vê, que vocês acham que não é problema, que é alicerce, que é necessário à formação das nossas futuras gerações, do nosso futuro. E é exatamente isso. Alicerce de uma sociedade que traz o racismo tão arraigado em sua formação que não consegue manter a necessária distância do foco, a necessário distância para enxergá-lo. Perpetuar isso parece ser patriótico, esse racismo que "faz parte do patrimônio cultural de todos nós – crianças, adultos, alunos, professores – brasileiros de todos os credos e raças." Sabe o que Lobato disse em carta ao seu amigo Poti, nos albores do século passado, em 1905? Ele chamava de patriota o brasileiro que se casasse com uma italiana ou alemã, para apurar esse povo, para acabar com essa raça degenerada que você, em sua ilustração, lhe entrega de braços abertos e sorridente. Perpetuar isso parece alimentar posições de pessoas que, mesmo não sendo ou mesmo não se achando racistas, não se percebem cometendo a atitude racista que você ilustrou tão bem: entregar essas crianças negras nos braços de quem nem queria que elas nascessem. Cada um a seu modo, a repetir seu destino. Quem é poderoso, que cobre, muito bem cobrado, seus direitos; quem não é, que sorria, entre na roda e aprenda a sambar.
Peguei-o para bode expiatório, Ziraldo? Sim, sempre tem que ter algum. E, sem ódio, espero que você não queira que eu morra por te criticar. Como faziam os racistas nos tempos em quem ainda linchavam negros. Esses abusados que não mais se calam e apelam para a lei ao serem chamados de "macaco", "carvão", "fedorento", "ladrão", "vagabundo", "coisa", "burro", e que agora querem ser tratados como gente, no concerto dos povos. Esses que, ao denunciarem e quererem se livrar do que lhes dói, tantos problemas criam aqui, nesse país do futuro. Em uma matéria do Correio Braziliense você Saiba mais')" >http://www.divirta-se.uai.com.br/html/sessao_7/2010/11/29/ficha_agitos/id_sessao=7&id_noticia=31636/ficha_agitos.shtml" style="text-decoration: none;color: rgb(243, 130, 1);font-size: 12px;font-weight: bold;font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;">disse que "Os americanos odeiam os negros, mas aqui nunca houve uma organização como a Ku Klux Klan. No Brasil, onde branco rico entra, preto rico também entra. Pelé nunca foi alvo de uma manifestação de ódio racial. O racismo brasileiro é de outra natureza. Nós somos afetuosos”. Se dependesse de Monteiro Lobato, o Brasil teria tido sua Ku-Klux-Klan, Ziraldo. Leia só o que ele disse em carta ao amigo Arthur Neiva, enviada de Nova Iorque em 1928, querendo macaquear os brancos norte-americanos: "Diversos amigos me dizem: Por que não escreve suas impressões? E eu respondo: Porque é inútil e seria cair no ridículo. Escrever é aparecer no tablado de um circo muito mambembe, chamado imprensa, e exibir-se diante de uma assistência de moleques feeble-minded e despidos da menos noção de seriedade. Mulatada, em suma. País de mestiços onde o branco não tem força para organizar uma Kux-Klan é país perdido para altos destinos. André Siegfred resume numa frase as duas atitudes. "Nós defendemos o front da raça branca - diz o sul - e é graças a nós que os Estados Unidos não se tornaram um segundo Brasil". Um dia se fará justiça ao Kux-Klan; tivéssemos aí uma defesa dessa ordem, que mantém o negro no seu lugar, e estaríamos hoje livres da peste da imprensa carioca - mulatinho fazendo o jogo do galego, e sempre demolidor porque a mestiçagem do negro destroem (sic) a capacidade construtiva." Fosse feita a vontade de Lobato, Ziraldo, talvez não tivéssemos a imprensa carioca, talvez não tivéssemos você. Mas temos, porque, como você também diz, "o racismo brasileiro é de outra natureza. Nós somos afetuosos." Como, para acabar com a polêmica, você nos ilustra com o desenho para o bloco quemerdense. Olho para o rosto sorridente da mulata nos braços de Monteiro Lobato e quase posso ouvi-la dizer: "Só dói quando eu rio".
Com pesar, e em retribuição ao seu afeto,


Ana Maria Gonçalves
Negra, escritora, autora de Um defeito de cor.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

A Perícia fascista e a Falácia do Estado neoliberal

                         O professor sob olhar do Estado de São Paulo é um monstro!
Entramos no ano letivo com mais uma da perícia médica do Estado de São Paulo: gordo não pode dar aulas! Felizmente desta vez o processo foi noticiado na grande mídia, pois há muitos anos os professores ouvem falar de absurdidades que a perícia comete, reprovando professores por problemas simples, passageiros ou de fácil controle. Como diabético, passei três meses realizando intermináveis exames, realizados com meus próprios recursos, pois se fosse esperar a marcação de exames nos hospitais públicos não poderia tomar posse. São diversas humilhações e pressões que os servidores estaduais passam na mão desses "supostos" médicos, contratados puramente para manter enxuto o número de assalariados efetivos. É a última das barreiras que o ingressante têm que vencer, e também a mais difícil. Usam critérios subjetivos, pedem exames caros e difíceis de fazer, muitos sem relação com a doença (eu trato minha diabetes na Unifesp, que não aceitou realizar os exames por serem de caráter admissional, e por considerarem não ter realmente nenhuma relação com meu caso investigar tipos de câncer, degenerações e vírus diversos). Eles ficam procurando pêlos em ovo, e se não encontram, é só dizer que o ingressante é gordo e pronto: REPROVADO! Por mais que o número de licenças médicas seja muito alto entre os docentes, e todos sabem que o trabalho é altamente "insalubre" em sala de aula, é evidente que é uma política de Estado barrar o número de funcionários. Poucos dos consursados foram chamados, apenas para se manter um terço dos professores em situação de temporários. É mais fácil de explorar, de manipular, de retirar direitos e claro, como todo pensamento neoliberal, sucatear a educação pública. Assim, o Estado trata seus professores de forma preconceituosa, somente os arianos puros podem assumir, somente os super-homens, capazes de suportar todo tipo de pressão e violência nas escolas precarizadas poderão vingar sem licenças médicas e somente os perfeitos não terão motivos de serem reprovados. Se tiver uma espinha, cuidado, você pode ser considerado inapto.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Desabafo de psicanalista doutora da PUC- SP

*Desabafo
por Suely Rolnik*

Vale a pena ler o excelente e corajoso texto que Maria Rita Khel publicou em
sua coluna no Estadão na véspera do primeiro turno (Nota do blogueiro: texto publicado nesse blog). Para os que não sabem, a publicação deste texto causou sua demissão do jornal. A censura (do tipo velhos métodos, não tão longínquos quanto gostaríamos), teve como objeto o simples fato de uma jornalista (diga-se de passagem, de alta respeitabilidade, também como intelectual e psicanalista) ter ousado expressar uma mínima parcela do que todos nós temos obrigação de pensar, face à situação perigosamente perversa que vem se apresentando nestas
eleições.

Ao que ela escreve, eu acrescentaria que não podemos bobear de agora até o
segundo turno (pelo menos). Estejamos alertas aos estragos provocados pelo
monopólio da informação em nosso país (o tal PIG: política de informação
golpista), que expressa os interesses de apenas uma parcela mínima da
população, profundamente bichada por
subjetividades tacanhas. Um monopólio que convoca o que temos de
mais reativo: a memória colonial e escravocrata inscrita em nossos corpos de
classe média e elite brasileiras, amputada de sua dimensão de vida pública,
intoxicada de preconceitos de classe e de raça, etc., etc. Sintomas de um
narcisismo ancestral, que se aterroriza face à
desestabilização de nossos contornos, causada pela pulsação da alteridade em
nossos corpos; um terror que projetamos sobre nossos (não tão) outros com
nojo, ódio e desprezo (mesmo quando, no melhor dos casos, este sentimento se
transveste da inofensiva e estéril bondade politicamente correta). São estes
microfascismos que estão
subindo à superfície midiática sem disfarce, sem o menor pudor e cada vez
mais violentamente. O buraco de onde emergem estas forças reativas está bem
mais embaixo do que o simples ódio ao PT ou à Dilma. Este é apenas sua
atualização mais explícita no momento. E é isto o que nos deixa indignados
e, sobretudo, nos assusta.

Ativemos nosso senso de responsabilidade na construção da realidade (que
nada mais é que nossa responsabilidade perante a vida), senso tão debilitado
na história que nos constitui. Não podemos responsabilizar um candidato ou
um partido pela corrupção que certos “elementos” do mesmo possam ter
cometido, senão teríamos que responsabilizar todos aqueles que participam ou
participaram do Estado brasileiro, desde a fundação da República (o que
aliás funda o triste argumento, bastante comum em nosso país, de que todos
os políticos são igualmente corruptos e oportunistas, e que a política não
tem outro sentido, senão o de servir os interesses desta corja). É ridículo
cairmos neste argumento da mídia, que explora a despolitização doentia de
nosso país. Tampouco podemos decidir nosso voto em função de nossa
simpatia ou antipatia por este ou aquele candidato, mas sim em função de
nossa maior ou menor identificação com um projeto político e de nosso
desejo de que este projeto se imponha na condução de nosso destino, a
cada momento que nos é dada a possibilidade de escolha.

Não estou me referindo a projeto político no sentido de um puro blábláblá
retórico e/ou ideológico, mas daquilo que, de fato, se traduz na ação de um
partido. Votarei na Dilma baseada naquilo que o governo regido pelo PT sob a
presidência de Lula realizou neste 8 anos (segue, em anexo, uma lista mínima
destas realizações, comparadas às do governo FHC, que circulou na internet
antes do primeiro turno). Sabemos dos grandes avanços conquistados, seja por
nossa própria participação direta ou indireta nas diferentes ações levadas
nas áreas da educação, saúde, cultura, economia, etc., seja pela
participação de
amigos ou amigos de amigos (já que não temos quaisquer outros meios
de informação). Foram muitas, mas muitas mesmo, as pessoas que
vararam noites e mais noites, anos a fio, para fazer mover o mais que
pudessem o estado de inércia patológica do pensamento em nosso
país pós-ditadura, de modo a abrir espaços inéditos de
exercício democrático, na reinvenção permanente de nossas existências
individual e coletiva, em função do que a vida nos indica e nos exige.
Infelizmente, a grande maioria não tem acesso a estas
informações, exatamente em razão do poder absoluto do tal PIG no Brasil
(aliás, nesse aspecto, nosso país se distingue de quase todo o resto
do planeta, a começar por nosso próprio continente). Muitos de nós
nos angustiamos com esse monopólio descarado da informação que
tem emporcalhado de microfascismos as páginas dos jornais e revistas e
a tela das TVs, mas na hora H as forças reativas tendem a vencer em
nós mesmos, talvez por nossa incapacidade de lidar com o que nos
causa tamanho desconforto com a situação atual, um desconforto que,
inclusive, traz à tona a memória do trauma da ditadura, que até hoje não
conseguimos sequer começar a elaborar. É patético, por exemplo, deixarmos
passar a operação sinistra do pior de nossas elites, via mídia, que
transforma a resistência à ditadura em coisa de vagabundo e assassino (o que
é mais espantoso ainda, quando esse tipo de argumento é usado para a
campanha eleitoral de um candidato que tem um “passado de esquerda” e o
reivindica como parte de seu show) . Morro
de vergonha!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Bem é um desabafo. Espero contar com muitos outros ousando pensar e agir
contra esta situação, como vem ocorrendo pelo menos via internet, esta zona
franca que escapa por todos os lados ao confinamento imposto pelo PIG.

Abs, Suely.

*Suely Rolnik é psicanalista, Professora Titular da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e ensaísta.
Viveu em Paris de 1970 a 1979, onde fez grande parte dos estudos universitários e iniciou a carreira de psicóloga, analista institucional e professora de Psicologia.


*Governo Lula:*

1) reduziu a inflação de 12,5% (2002) para 5,9% (2008) ao ano; a taxa média
anual de inflação no governo Lula (6% ao ano) é menos da metade da que
tivemos no governo FHC (12,5% ao ano);

2) aumentou o salário mínimo para o seu maior patamar em 40 anos, com um
aumento real de 46%;

3) reduziu a relação dívida/PIB de 55,5% para 37% do PIB;

4) acumulou um superávit comercial de US$ 229 Bilhões;

5) pagou toda a dívida com o FMI e com o Clube de Paris e o Brasil se tornou
credor do FMI, algo inédito na história do país, para quem emprestou US$ 10
Bilhões;

6) reduziu o déficit público nominal de 4% do PIB (2002) para 1,5% do PIB
(2008);

7) ampliou a capacidade de investimentos do Estado; Os investimentos do
governo federal e das estatais par a 2009 estão previstos em R$ 90 Bilhões;

8) aumentou as exportações de US$ 60 Bilhões/ano (2002) para US$
198 bilhões/ano (2008) acumulando um crescimento de 230% em 6 anos;

9) aumentou as reservas internacionais líquidas de US$ 16 Bilhões (2002)
para US$ 209 Bilhões (2009);

10) ampliou o Pronaf de R$ 2,5 Bilhões/ano (2002) para R$ 12,5 Bilhões/ano
(2008);

11) a concentração de renda e as desigualdades sociais
diminuíram sensivelmente; o índice de Gini atingiu o menor patamar da
História;

12) gerou 7,7 milhões de empregos formais entre 2003/2008;

13) reduziu o percentual da população brasileira que vive abaixo da linha de
pobreza de 28% (2002) para 19% (2006), segundo o IPEA;

14) elevou os gastos sociais públicos para 18% do PIB;

15) o BNDES emprestou R$ 92 Bilhões em 2008 para o setor produtivo, contra
cerca de R$ 20 Bilhões em 2002;

16) fez o Brasil se tornar credor externo, com um saldo positivo de US$ 23
Bilhões, algo inédito na História do país;

17) criou programas sociais inclusivos, como o Bolsa-Família, ProUni, Brasil
Sorridente, Farmácia Popular, Luz Para Todos, entre outros, que beneficiaram
aos pobres e miseráveis;

18) iniciou novas grandes obras de infra-estrutura (rodovias, ferrovias,
usinas hidrelétricas, etc) financiadas tanto com recursos públicos como
privados. Exemplos: Usinas do Rio Madeira, Transnordestina, Ferrovia
Norte-Sul, recuperação das rodovias federais, duplicação de milhares de
quilometros de rodovias;

19) anulou portaria do governo FHC que proibia a construção de
escolas técnicas federais e iniciou a construção de dezenas de novas
unidades e que foram transformadas em Institutos Superiores de
Educação Tecnológica;

20) criou o Reuni, que iniciou um novo processo de expansão
das universidades públicas, a umentando consideravelmente o número
de universidades, de campus e de vagas nas mesmas;

21) os lucros do setor produtivo cresceram quase 200% no primeiro mandato em
relação ao governo FHC;

22) fez o Estado voltar a atuar como importante investidor da economia.
Exemplos disso: a criação da BrOI, que têm 49% do seu capital nas mãos do
Estado; a compra e incorporação de bancos estaduais pelo Banco do Brasil (da
Nossa Caixa, do Piauí, Santa
Catarina e Espírito Santo) evitando que fossem privatizados; a participação
da Petrobras em 2 grandes petroquímicas nacionais (a Braskem, com 30% do
capital nas mãos da Petrobras; a Ultra, com 40% do capital nas mãos da
Petrobras); o aumento da participação dos bancos públicos (BNDES, CEF, BB,
BNB) no fornecimento de crédito para a economia do país;

23) elevou o volume de crédito na economia brasileira de cerca de 23% do
PIB, em 2002, para 43% do PIB, em 2009;

24) cr iação do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) que
prevê investimentos públicos e privados de R$ 646 Bilhões entre
2007/2010; até 2013 os investimentos previstos chegam a R$ 1,14 Trilhão;

25) reduziu a taxa de desemprego de 10,5% (Dezembro de 2002) para
6,8% (Dezembro de 2008);

26) reduziu os gastos públicos com pagamento de juros da dívida pública para
5,9% do PIB (em 2008),representando uma queda de cerca de 36% quando
comparado com o segundo mandato de FHC.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Representante do circo faz duras críticas ao Serra em evento ns Secretaria Municipal de Cultura



Segue carta de um grande representante de famílias circenses do Brasil, Francisco Confort, o principal secretário de grandes companhias circenses que estiveram em São Paulo de 1970 a 2000, como o Circo Garcia, Tihany, Orlando Orfei, Bartholo, Vostok, Spacial e Stancowitch. Apesar do tom da carta ser de admiração ao Serra, quando a recebi do próprio autor, no evento “Circo: Café dos Artistas”, do dia 31/05, ele fez duras críticas ao Governo Estadual, repúdiando o tratamento do Serra aos artistas brasileiros e sua exaltação às grandes coorporações, até porque a carta nunca teve resposta.
Educador que não se cala.

"Ao
Secretário do Meio Ambiente
Francisco Graziano Neto
E ao Excelentíssimo Governador do Estado de São Paulo
José Serra
Como cidadão brasileiro, é com muita tristeza que me dirijo a V. Exa. para manifestar o sentimento de indignação que tomou conta de mim e de toda a classe circense, pelos motivos que exponho abaixo.
A razão de tal sentimento é a autorização da instalação do Cirque du Soleil, de nacionalidade estrangeira, em área do Estado no Parque Villa Lobos, sob administração dessa Secretaria do Meio Ambiente, inclusive com apoio cultural divulgado na mídia escrita e falada.
Mesmo que o Cirque du Soleil tenha, reconhecidamente, um bom nível de espetáculo, que tenha em seu plantel artistas brasileiros e uma ótima estrutura preparada para receber até 3000 pessoas por espetáculo, não é cabível a cobrança mínima de R$400,00 por um ingresso. Por ser um evento cultural, esse valor finda elitizando o público. Como poderia, Sr. Secretário, uma família da classe pobre do nosso país, com dois ou três filhos, ter a oportunidade de exercer o seu direito à educação com um valor desses? Nem mesmo a grande maioria da classe artística circense do nosso país teria condições.
Causa um profundo sentimento de tristeza que essa classe sofrida, que é a classe circense, não tenha o mesmo apoio e que tenha que pagar os mesmos R$400,00 que qualquer outro espectador, mesmo apresentando documentação de que pertence ao meio artístico.
Representando essa classe, existe no Brasil a Academia Brasileira de Circo. Ela forma artistas circenses em diversas modalidades. Aquela Academia solicitou, por meio de ofício, convites promocionais para quarenta alunos e cinco professores, não fazendo exigência quanto a dia e horário. Em resposta a esse ofício, foram cedidos apenas três convites, fazendo com que o Diretor da Academia, mesmo apresentando suas credenciais, tivesse que arcar com o valor mínimo do ingresso.
De igual desconsideração foi alvo um dos ícones do circo brasileiro: o globista Marcondes, que percorreu todo esse país e vários países da América do Sul e do Norte, demonstrando a sua arte e divulgando a cultura brasileira. Mesmo se identificando, também foi obrigado a pagar o seu ingresso como qualquer outro espectador, além de arcar também com o valor de R$20,00 referentes a uma vaga de estacionamento.
Esse tratamento que tem sido dado aos artistas brasileiros é que provoca esse sentimento de profunda indignação.
Quero lembrar que os circos brasileiros de grande porte cobram ingressos de, no máximo, $20,00 para adultos e R$10,00 para crianças.
A indignação aumenta quando se tem conhecimento que o Circo Espacial, um produto brasileiro e do qual V. Exa. Já deve ter conhecimento, solicitou à administração do Parque Villa Lobos a cessão da referida área por 60 (sessenta) dias, pelo que recebeu “não” como resposta e a justificativa de que naquela área “não é permitida a instalação de circos (brasileiros?), pelo fato de não ser permitida a cobrança de ingressos.”
Pergunto: como é que vai ficar, Senhor Governador, daqui por diante, o atendimento aos circos de grande porte nacionais? Como justificar a dualidade de tratamento dada a uma atração estrangeira e a uma nacional, como o Circo Espacial?
Os circos brasileiros não têm qualquer apoio de nenhuma esfera governamental, quer seja municipal, estadual ou federal. Para que o senhor tenha uma idéia, o Circo ARTE e CULTURA tem se apresentado, com muita dificuldade, ao nosso público brasileiro. Esse circo vem lutando, cada dia com mais dificuldades, para conseguir uma área pública por 60 dias. Estas áreas estão cada dia mais escassas e sempre são negadas pelo Poder Público. Os nossos circos só conseguem mostrar a sua arte em áreas particulares, mediante pagamento de aluguéis. Mesmo estas áreas particulares estão ficando escassas e, para os próximos anos, elas tendem a não estarem mais disponíveis.
Quero lembrar, Exmo. Sr. Governador, que, mesmo com todas as dificuldades que os nossos circos atravessam, eles não deixam de atender a todas as solicitações originadas dos órgãos públicos como Prefeituras Municipais e o Estado. Frequentemente os nossos circos são solicitados, mediante ofício desses órgãos públicos, a atender gratuitamente crianças carentes, orfanatos, escolas municipais e estaduais. Já é tradição esse atendimento às 5ª e 6ª feiras. Isso sim é coisa de brasileiro: o atendimento e a valorização do seu povo.
É muito triste, senhor Governador, ver que tão carente e sofrida classe cultural do nosso país não receba apoio e que ainda dependa de pessoas abnegadas como este que vos escreve, nos autos dos seus 86 anos de idade, com a saúde extremamente debilitada, mas que acredita no produto nacional e a ele presta a sua modesta colaboração.
Por tudo exposto acima, venho, representando a classe circense, solicitar de V. Exa. Ações no sentido de determinar ao Senhor Secretário do Meio Ambiente, Sr. Francisco Graziano Neto, apoio e autorização para que os circos brasileiros possam se instalar, mediante solicitação por ofício, em áreas públicas determinadas por aquele Secretário, dando a eles igualdade de tratamento como a outras atrações estrangeiras.
Conhecedor que sou da boa vontade, sentimento de justiça e competência de V. Exa., eu e toda a classe circense temos aprovado a sua administração. Por isso ficamos no aguardo de um pronunciamento positivo de V. Exa.
Subscrevo-me, desejando-lhe um forte abraço.
São Paulo, 11 de maio de 2008.

Francisco Gimenez Confort"

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Assassinato em Heliópolis: desabafo de um professor


É que mataram um estudante que poderia ser filho de qualquer um de vocês. Com essas palavras, se explicou o motivo dos protestos que seguiram a morte por uma bala perdida de Edson Luis, estudante secundarista, que almoçava no restaurante Calabouço, em 1968. Edson que na época sonhava em virar universitário, já não poderia sonhar com mais nada, diziam os manifestantes na época.
É que mataram uma estudante. Ana Cristina E não foi naquela ditadura. Foi agora. Segunda feira. Voltava pra casa. Tinha dezessete anos e deixou uma filha de um ano e oito meses. Se tinha sonhos? Sim, muitos. E isso eu posso dizer com toda certeza. Pois até o semestre passado fora minha aluna. Sentava na primeira fileira. Também falava de continuar estudando, de voltar pra terra natal, falava de amores. Falava e mostrava fotos de sua filha. Escutava com atenção as explicações na aula e tentava produzir o melhor. Agora não vai poder sonhar mais nada. Uma bala perdida que se alojou em seu pescoço tirou tudo isso. Tentou se esconder atrás de um carro, mas não conseguiu.
Mais uma vez entraram na favela atirando.
Agora ouço os helicópteros voando baixo aqui perto. Mais cedo ouvíamos os gritos e barulhos de tiros. Tudo para conter a manifestação de indignação dos moradores do lugar. Aos poucos chegam notícias do gás de pimenta, das bombas. Como moro no Ipiranga, tudo isso é muito perto e ao mesmo tempo muito longe. A distância de um viaduto que nos separa da favela. E tentamos dormir quase em paz.
Antes do recesso, um outro estudante me disse que a polícia está matando demais na favela. Que para dispersar uma festa na rua que atrapalhava o trânsito, junto com balas de borracha usaram balas de verdade, resultando em um morto, outro estudante da mesma escola.
E esses estudantes não são martires de nenhuma luta contra ditadura. São meras estatistícas. Números em nossa tão fulgurante democracia republicana.
Sua luta é muito mais dura, pois é cotidiana. Luta por sobreviver, por existir.
A tortura, os assassinatos e a opressão continuam. Mas todos saúdam uma pretensa democraciam e relembram ( mas não muito, que não se deve mexer em certos esqueletos no armário) uma ditadura que segundo eles juram, acabou. Deixemos isso para os livros de história. E um salve para nossos heróis.
E que Heliopólis e seus mortos permaneçam bem longe, depois do viaduto.
Alan L.
PS: Sei que o que escrevi está muito confuso, mas precisava desabafar. Estou cansado de chorar. Na TV poucas palavras agora a noite em contraposição a uma imnesa matéria sobre peixes. Mas no fim pouco disso importa. Ana não está mais aqui. E tudo isso continuará, e cada vez pior!

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Verdades de um professor

Fonte:
http://diariodoprofessor.com/2008/11/30/carta-aberta-a-futura-secretaria-de-educacao-do-rio-de-janeiro-claudia-costin/

Veja o discurso dessa senhora, que está em consonância com os ideais dos políticos e corporações midiáticas do Brasil e especialmente em São Paulo, criminalizando o professor pelos erros do Estado.


A Sra. Claudia Costin foi Secretária de Estado da Cultura do Rio de Janeiro.
Não deixem de ler.



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Carta aberta à futura Secretária de Educação do Rio de Janeiro,Cláudia Costin

Por Declev Dib-Ferreira, em Brasil – país dos absurdos, Desabafo, Educação, Opinião, Política,

Reflexões
Prezada Cláudia,

Sou funcionário do município do Rio, professor de Ciências.Tenho este cargo por mérito próprio, por passar em um concurso, há quase 5 anos - não tenho cargo por indicação política. Li uma matéria com uma entrevista sua no O Globo, dia 08 de novembro de 2008, página 18. Na ocasião, algumas frases e propostas me chamaram a atenção. Tanto pela inocência quanto pela maldade das mesmas. Gostaria de, mui respeitosamente, discutir alguns pontos.

Vejamos: 1 - Você diz que pretende "investir na qualificação de professores, que poderão ganhar computadores portáteis".

Eu agradeço muito o computador, porque estou precisando, pois o meu pifou. Mas isso, sinceramente, não creio que seja investir na qualificação do professor. Já tive a oportunidade de escrever sobre isso por aqui, quando da mesma compra pelo Estado. Tenho um amigo que ficará com 5 computadores portáteis em casa e não sabe o que fazer com tantos. Ele e a esposa são professores, ambos do Estado e da prefeitura do Rio. Já tinham um, ambos ganharam do Estado e ambos ganharão da prefeitura.

Professores, cara futura secretária, querem salário decente. Com ele podem comprar seus próprios

computadores. E muitos já o fizeram, pois o preço baixou bastante. Eu mesmo ia comprar um - como eu disse, o meu pifou - mas não vou. Estou esperando ganhar. Mas preferia um bom aumento de salário para

comprar o que eu próprio escolhesse e ainda aumentar minha renda.

2 - Você faz uma pergunta: "Por que uma cidade que tem tantos mestres e doutores de qualidade não consegue fazer um Ideb compatível com os de países desenvolvidos? ".

O Demétrio Weber já respondeu, mas eu insisto em te responder esta pergunta também. E o principal motivo é simples: porque mesmo sendo mestres ou doutores de qualidade, temos que trabalhar em dois, três, quatro ou mesmo em cinco lugares diferentes para poder somar renda e ter um salário "compatível com os de países desenvolvidos" !!! Sem contar as condições em que trabalhamos, secretária, que nem de longe é "compatível com os de países desenvolvidos" . A pergunta deveria ser ao contrário: "por que não tratamos como os países desenvolvidos os nossos tantos mestres e doutores de qualidade?".

3 - Por fim, sua maior pérola, a frase "Quando um aluno é reprovado, é sinal que o professor falhou".

Fico muito, muito, muito apreensivo que uma pessoa que tenha este pensamento venha a coordenar a maior rede municipal da América Latina. Para facilitar o entendimento da minha lógica - que pode ser muito profunda para quem nunca entrou numa sala de aula do ensino fundamental de uma escola encravada numa favela - farei um paralelo com o médico. Imaginemos uma pessoa que desde que nasceu não tem cuidados médicos, não se cuida, não faz exercícios, não se alimenta direito, bebe, fuma, é sedentário, estressado etc. Essa pessoa passa mal e vai ao médico... O médico receita remédios e faz uma série de recomendações dizendo que, se não as seguir, ele pode morrer. O doutor marca uma nova consulta para daqui a alguns meses, para verificar o seu progresso. A pessoa não fez nada do que o médico receitou e ainda faltou à consulta. Passa mal de novo e vai ao médico. O doutor dá uma bronca, faz as mesmas recomendações, passa as receitas novamente, marca uma nova consulta. O paciente, mais uma vez não faz o que o médico manda e morre. O médico falhou? Pela sua lógica, "quando um paciente morre, é sinal que o médico falhou". Ou será que neste caso a senhora achará que o culpado é o paciente, já que o médico fez o possível para salvá-lo. Será que o professor também não o faz?

Mas vamos examinar o nosso caso, por partes e desde o início.

a) quando a criança foi concebida, quem falhou foram os pais, que souberam gozar, mas não evitar a gravidez;

b) quando a moça estava grávida falharam ela, o pai, a família e o Estado, que não deram a ela e ao feto um pré-natal decente - ou mesmo um pré-natal;

c) quando ele nasceu e era um bebê cheio de necessidades falharam os pais que colocaram no mundo uma criança sem ter condições mínimas de criá-lo e falhou o Estado em não dar a ele o que necessitava para seu pleno desenvolvimento;

d) quando ele era uma criança falhou o Estado mais uma vez por não oferecer a ele a pré-escola, tão importante no desenvolvimento intelectual e psicomotor nesta idade. Não obstante,este ser um direito garantido pela Constituição Federal: Art. 208. O dever do Estado com a educação será efetivado mediante a garantia de: IV - atendimento em creche e pré-escola às crianças de zero a seis anos de idade;

e) nesta mesma idade e até tornar-se o adolescente ao qual a senhora se refere - aluno do fundamental - falham o Estado, as polícias, os bandidos, os filhinhos de papai, os atores da Globo, os artistas e todos aqueles que usam drogas, ao condená-lo a viver em um local extremamente violento, com disputas entre facções rivais, com invasões desumanas de policiais em suas casas e um cotidiano de estatísticas piores que de guerras;

f) quanto à sua moradia, falham os políticos filhos da puta, o Estado, o empresários, os> especuladores, por fazê-lo viver em submoradia, sem o mínimo de conforto, sem espaço para ele, com uma densidade demográfica japonesa dentro de sua casa;

g) falham os publicitários que mentem para que ele não seja ninguém se não tiver o que ele não pode ter;

h) falham as emissoras de televisão ao entrarem diariamente em contato> com ele com imbecilidades que não ajudam em nada seu intelecto;

i) falham os empresários de ônibus que o restringe de andar pela cidade por conta do preço da passagem e do péssimo serviço que oferecem;

j) falham os locais culturais que são inacessíveis a ele (inacessíveis financeiramente ou mesmo culturalmente) ;

k) falha a sociedade como um todo que o quer longe;

l) falha a estrutura da escola que só o tem em um pequeno período do dia, deixando-o nas ruas no resto das 24h;

m) falha o Corpo de Bombeiros que carrega bandidos carnavalescos desfilando em carro aberto pela cidade, ao mostrar que quem tem valor é quem tem dinheiro, não importa de onde vem;

n) falham os jornais de grande circulação que estampam nas primeiras páginas, praticamente todos os dias, as fotos e colunas de fofocas de traficantes e outros bandidos - inclusive tenho um O Dia que tem a primeira capa toda falando do casamento de um traficante - glorificando quem é bandido, mostrando a ele que esse é o caminho;

o) falha o Conselho Tutelar ao superproteger mesmo quando fazem merda, nada fazendo e não mostrando que além de direitos também tem obrigações;

p) falham as editoras de revistas que só colocam a preço de quase nada as revistas mais imbecis que existem, com fofocas e coisas do gênero; Enfim, apesar de a Constituição prever que "A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade" (Art. 205), a senhora vem me dizer que "quando um aluno é reprovado, é sinal que o professor falhou"? Francamente. É justamente o professor que está lá dentro, cara futura secretária de educação, com o aluno, diariamente, tentando fazer com que ele estude, com que ele dê valor ao estudo, com que ele aprenda! O professor é praticamente o único que quer que ele seja alguém pela educação; o professor que luta contra toda a merda que a sociedade faz com ele desde antes dele nascer, para que ele se salve.

Veja, o que diz a Constituição Federal: CAPÍTULO II - DOS DIREITOS SOCIAIS Art.. 6º. São direitos sociais a educação, a saúde, o trabalho, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição. Quais destes direitos o Estado - do qual você tem íntima relação, a ver pelos cargos que já ocupou - oferece ao aluno - e com qualidade? Quase nenhum, né? E você vem me dizer que é o professor que falha, como se só o que fazemos em sala de aula é o que conta, é o que faz um aluno ter sucesso ou não??? Francamente.

Assinado: Um professor mestre, doutorando que tem diversos empregos e luta para que seus alunos possam superar toda a sujeira, que a sociedade faz com eles, para que possam ser alguém na vida e que, justamente por se sentir incapaz de fazer isso com o que o Estado lhe oferece, não acredita em reprovação.

Declev Reynier Dib-Ferreira