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terça-feira, 1 de julho de 2014

O ir e vir de uma palhaça assassinada e seu algoz P.M.


O assassino já está em liberdade...

http://g1.globo.com/sp/presidente-prudente-regiao/noticia/2014/06/justica-concede-liberdade-provisoria-pm-que-disparou-contra-motocicleta.html?utm_source=g1&utm_medium=email&utm_campaign=sharethis


ADVOGADO DA FAMÍLIA QUE ACOMPANHA O CASO, ESSA É A VERDADE (LINK ABAIXO):

''Não podemos entender como "tragédia". A palavra nos remete a casualidade. O policial fez a mira e atirou. Não foi casualidade. Não houve troca de tiros, não houve perseguição, houve uma mira e um tiro. Os fatos serão "esclarecidos".

http://g1.globo.com/sp/presidente-prudente-regiao/noticia/2014/06/advogado-nega-que-condutor-tenha-tentado-fugir-de-bloqueio-policial.html
 

Colando de: http://ponte.org/a-morte-da-palhacinha/

A morte da palhacinha


Presidente Prudente - Cerca de 200 pessoas, a maioria jovens com os narizes pintados de vermelho, como palhaços, compareceram ao cemitério de Rancharia, interior de São Paulo, no sábado (28 de junho), para se despedir da jovem atriz e produtora cultural Luana Carlana de Almeida Barbosa, a Lua, morta na véspera por tiro desferido por um policial militar.
Lua, que na vida de circo era conhecida como a palhaça Meia Lua Quebrada, tinha recém-completado 25 anos. No caixão, o corpo dela também estava com o nariz pintado de vermelho.lua4a
O jogo do Brasil contra a seleção do Chile ainda não tinha começado, quando o amigo Luis Valente puxou o “Ale Hop” , expressão usada pelos artistas circenses para indicar o início de um número. Repetido o grito por todos os que choravam no velório, o caixão já estava sendo fechado sob uma salva de palmas, quando a irmã de Lua, Nara, 21 anos e portadora de síndrome de Down, gritou: “Viva o Brasil”. Não era uma ironia.
A morte de Lua aconteceu na sexta-feira, por volta das 9h30, quando ela, na carona de uma moto, passava por bloqueio policial montado na avenida Joaquim Constantino, em Presidente Prudente. A motocicleta era pilotada pelo namorado de Lua, Felipe Barros, de 29 anos. Segundo a polícia, Felipe não teria obedecido à ordem de parada, avançando contra a barreira. No boletim de ocorrência, consta que a moto andou 300 metros antes de parar.
A versão do cabo Marcelo Coelho, que fez o disparo, é que foi tudo um acidente. Para ele, que trabalha há 23 anos na Polícia Militar, o capacete do piloto bateu em sua mão, provocando o tiro. O soldado foi detido no Presídio Militar Romão Gomes, em São Paulo. Por poucas horas.foto 3 copy
Autuado em flagrante, o cabo foi solto no domingo por um habeas corpus. Até a conclusão do inquérito, ficará encarregado de trabalhos administrativos no 18o. Batalhão da Polícia Militar de Presidente Prudente.
“Querem agora culpar o Felipe, mas está claro que a culpa é de quem puxou o gatilho Não quero culpar toda a instituição, mas cabe a ela dar uma resposta ao assassinato da minha filha”, disse Marcos de Almeida Barbosa, 56 anos, pai de Luana e secretário de Cultura de Rancharia.
Sorrisos
Olhos verdes, cabelo liso, magra, dentes bonitos, vegetariana, Lua não parava nunca. “Era alegre, artista, viva, pessoa do bem, positiva”, descreve o amigo e ator Tiago Munhoz. Estava sempre trabalhando. “Desde assessoria até lavar o banheiro, ela topava tudo –sempre com um sorriso no rosto”, lembra o amigo e ator Luis Valente.
Formada em Artes Cênicas pela Escola Técnica da Universidade Federal do Paraná, Lua fez curso técnico para produção de cinema e vídeo. Atualmente cursava Produção de Eventos na Fatec de Presidente Prudente.
Era atriz e produtora cultural na Federação Prudentina de Teatro e Artes Integradas. Na pele da palhaça Meia Lua Quebrada, atuava no grupo de Circo de Rua Os Mamatches, além de dar aulas no Circo-Escola, que rodava as cidades da região de Prudente. A atividade era voltada principalmente às crianças.
“Não consigo pensar nos Mamatches sem ela. Como continuar, não sei…”, lamenta Camila Peral, amiga e componente do coletivo de artistas. “Todos os trabalhos que tínhamos, todas as dúvidas, era a ela que nós consultávamos”, disse.
Família
Luana sempre gostou de ler. Fez balé quando criança e aos 12 anos entrou em um grupo de teatro de Rancharia chamado Pé na Estrada. Ali, descobriu sua paixão. Aos 17 anos, saiu de casa para estudar em Curitiba.
“Claro que tive medo. Mas era o sonho dela, então a deixamos ir. O maior prazer da vida dela era estar entre as crianças, por isso escolheu ser palhaça. O riso das crianças era o combustível da vida dela”, lembra o pai.
Luana e Nara eram muito apegadas. A família não sabe como Nara vai reagir ao desaparecimento da irmã. Quando Luana estava em Rancharia, elas ficavam grudadas. E, de vez em quando, Luana levava Nara pra casa dela em Prudente também, para passar o final de semana.
Quanto ao Felipe, eles estavam juntos há alguns meses. Estudavam e tinham projetos de trabalhar em um espetáculo de Mamulengo. Todos dizem que eles se completavam.
Na última quinta-feira, foi aniversário de 25 anos de Luana. Mas não houve festa. Durante todo o dia, ela e o namorado trabalharam na organização da festa junina da Federação Prudentina, que estava marcada para acontecer na sexta-feira à noite. Não deu tempo. A morte alcançou-a antes.
Sem punição
Os amigos não acreditam em punição severa ao policial que fez o disparo. Perguntado se acredita que será feita Justiça, Luis Valente responde logo: “Não. A Polícia Militar é muito corporativista. Não quero generalizar, mas a responsabilidade é da instituição”.
Para Camila Peral, amiga e componente dos Mamatches, o policial veio da calçada com a arma apontada para o casal, o dedo no gatilho. “Ele assumiu o risco de matar. Esse policial acabou com a vida da Luana, do Felipe, com a vida da família da Luana e acabou com a nossa vida também. E agora ela não vai voltar. O Estado dá a arma na mão de quem não sabe o que fazer com ela, de alguém que mata qualquer um.”
Segundo Tiago Munhoz, 36, ator, “não havia nenhuma denúncia, nem ocorrência que pudesse colocar a polícia em alerta e fazê-la reagir dessa forma truculenta. Isso demonstra um despreparo sem tamanho. Foi uma morte banal, um absurdo. Cabe a mim usar a arte para discutir o que aconteceu. Não sei o que posso fazer, mas eu vou fazer as pessoas refletirem.”
O caso está sendo investigado pela Polícia Civil, que abriu inquérito e tem 40 dias, prorrogáveis por mais 20, para finalizá-lo. A arma foi apreendida e deve passar por perícia.
“Ale Hop”
 

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Assassinato em Heliópolis: desabafo de um professor


É que mataram um estudante que poderia ser filho de qualquer um de vocês. Com essas palavras, se explicou o motivo dos protestos que seguiram a morte por uma bala perdida de Edson Luis, estudante secundarista, que almoçava no restaurante Calabouço, em 1968. Edson que na época sonhava em virar universitário, já não poderia sonhar com mais nada, diziam os manifestantes na época.
É que mataram uma estudante. Ana Cristina E não foi naquela ditadura. Foi agora. Segunda feira. Voltava pra casa. Tinha dezessete anos e deixou uma filha de um ano e oito meses. Se tinha sonhos? Sim, muitos. E isso eu posso dizer com toda certeza. Pois até o semestre passado fora minha aluna. Sentava na primeira fileira. Também falava de continuar estudando, de voltar pra terra natal, falava de amores. Falava e mostrava fotos de sua filha. Escutava com atenção as explicações na aula e tentava produzir o melhor. Agora não vai poder sonhar mais nada. Uma bala perdida que se alojou em seu pescoço tirou tudo isso. Tentou se esconder atrás de um carro, mas não conseguiu.
Mais uma vez entraram na favela atirando.
Agora ouço os helicópteros voando baixo aqui perto. Mais cedo ouvíamos os gritos e barulhos de tiros. Tudo para conter a manifestação de indignação dos moradores do lugar. Aos poucos chegam notícias do gás de pimenta, das bombas. Como moro no Ipiranga, tudo isso é muito perto e ao mesmo tempo muito longe. A distância de um viaduto que nos separa da favela. E tentamos dormir quase em paz.
Antes do recesso, um outro estudante me disse que a polícia está matando demais na favela. Que para dispersar uma festa na rua que atrapalhava o trânsito, junto com balas de borracha usaram balas de verdade, resultando em um morto, outro estudante da mesma escola.
E esses estudantes não são martires de nenhuma luta contra ditadura. São meras estatistícas. Números em nossa tão fulgurante democracia republicana.
Sua luta é muito mais dura, pois é cotidiana. Luta por sobreviver, por existir.
A tortura, os assassinatos e a opressão continuam. Mas todos saúdam uma pretensa democraciam e relembram ( mas não muito, que não se deve mexer em certos esqueletos no armário) uma ditadura que segundo eles juram, acabou. Deixemos isso para os livros de história. E um salve para nossos heróis.
E que Heliopólis e seus mortos permaneçam bem longe, depois do viaduto.
Alan L.
PS: Sei que o que escrevi está muito confuso, mas precisava desabafar. Estou cansado de chorar. Na TV poucas palavras agora a noite em contraposição a uma imnesa matéria sobre peixes. Mas no fim pouco disso importa. Ana não está mais aqui. E tudo isso continuará, e cada vez pior!